Surrupiando com Benjamin
Nesta edição, livros que emprestamos, obras que não devolvemos, Street Fighter em ritmo de jazz, a vitória dos letreiros no México e mais.
Quem passou por qualquer curso de Humanas provavelmente esbarrou em algum texto de Walter Benjamin. No meu caso, como estudante de jornalismo, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” costumava aparecer logo nas primeiras semanas da disciplina de Teoria da Comunicação, condensando a ideia de que a obra de arte, ao se tornar infinitamente reproduzível, perdia algo de sua presença irrepetível – aquilo que Benjamin chamou de aura. Para um estudante que até então achava o máximo criar musiquinhas para decorar os elementos da tabela periódica, a leitura de Benjamin parecia um verdadeiro chá de revelação da vida moderna.
Mas a lição benjaminiana que mais ficou comigo não veio daqueles xerox malfeitos que circulavam pelos corredores da faculdade. Veio de um texto que li muito tempo depois de ter me (de)formado em jornalismo. Falo do ensaio “Desempacotando minha biblioteca”. É um texto que trata de colecionadores de livros e daquele tipo peculiar de paixão que se desenvolve entre leitores e suas estantes. Em certo momento, Benjamin afirma que “dos modos habituais de aquisição, o mais adequado a um colecionador seria o empréstimo de um livro com a oportuna não devolução”. Em outros termos: “besta é quem empresta livro, e mais besta ainda quem devolve.”
Existe, de fato, uma ingenuidade muito particular no leitor que empresta livros. Reconheço essa inocência porque continuo cometendo o mesmo erro décadas depois de já saber como a história costuma terminar. É tão raro ver alguém genuinamente interessado em alguma passagem de um livro que, quando isso acontece, a gente se empolga e corre até a estante para emprestar o livro ao curioso interlocutor. Naquele instante parece evidente que aquele livro pertence mais à pessoa à nossa frente do que a nós mesmos. E então o livro vai embora – e, com certa frequência, não volta.
Já perdi um livro de introdução à literatura do Québec que, descobri anos depois, havia circulado por tantas mãos amigas que acabou se transformando em algo parecido com um livro coletivo. Há perdas assim que até fazem sentido. Mas de vez em quando penso em perdas de outra natureza: imagine perder uma primeira edição, um exemplar com dedicatória do autor, morto há séculos, ou mesmo um livro que, até pouco tempo atrás, já não se encontrava com facilidade, como a edição especial de Middlemarch, de George Eliot, que a Pinard relançou.
O curioso é que o problema raramente é a má-fé de quem recebe o livro. O que acontece é outra coisa: um livro emprestado passa a ocupar um território estranho. Ele já não é exatamente seu, mas também não é realmente de quem está com ele. Fica suspenso numa espécie de limbo literário. E objetos em limbo, como sabemos, têm uma tendência notável a desaparecer.
Benjamin provavelmente entendia esse mecanismo. Talvez por isso tenha formulado aquela teoria do empréstimo com não devolução como o método mais honesto de aquisição. Quem não devolve, no fundo, apenas reconhece que o livro chegou ao lugar onde deveria estar. É uma filosofia um pouco cínica, mas talvez seja também a que melhor descreve a vida real das bibliotecas pessoais.
Se você chegou até aqui e se lembrou de um certo alguém, encaminhe este texto para a pessoa. Não como cobrança. Apenas como um pequeno lembrete de que, como diria Benjamin, você não é besta, não.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
Estudantes nas ruas. Após anos de repressão, estudantes voltaram a ocupar as ruas da Venezuela. Protestos recentes, como a marcha que saiu da Universidade Central da Venezuela, em Caracas, simbolizam uma nova fase de mobilização após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro. Jovens pedem reformas políticas, libertação de presos e mais participação na reconstrução democrática do país. Veja a análise aqui.
Trump e o imperialismo. Para o historiador Luís Eduardo Fernandes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a política externa do presidente Donald Trump reforça uma “direção neofascista no sistema imperialista”. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele afirma que a chamada guerra às drogas tem sido usada para ampliar bases jurídicas e políticas que permitem intervenções diretas ou indiretas dos Estados Unidos na América Latina. Leia mais aqui.
Provocação no Lollapalooza. A banda chilena Candelabro gerou polêmica ao se apresentar no Lollapalooza Chile. Durante o cover de “Ultraderecha”, do Los Prisioneros, o grupo exibiu imagens de líderes políticos com suásticas na testa, entre eles José Antonio Kast, Javier Milei, Donald Trump e Benjamin Netanyahu. A performance ocorreu no palco Cenco Malls Stage e provocou forte repercussão nas redes. Veja aqui.
Plaza de cultura
🖌️ Letreiros renascidos. A proibição de letreiros em comércios de rua na Cidade do México acabou tendo o efeito contrário: despertou nas novas gerações o interesse pelo ofício da pintura de letras, que vive hoje um novo auge impulsionado pela estética da gráfica popular mexicana. Veja a reportagem no El País.
✍️ Morre Alfredo Bryce. Voz essencial da literatura peruana e grande nome do chamado “boom latino-americano”, o escritor peruano, autor de Um mundo para Julius, faleceu em Lima aos 87 anos. Conhecido por uma prosa oral e confessional, retratou com ironia a alta burguesia de seu país e deixou uma obra que, segundo o Instituto Cervantes, mudou para sempre a forma de entender o Peru.
🎮Ryu e Chun-Li em Havana. E se a trilha de Super Street Fighter II tivesse nascido num clube de jazz caribenho? É exatamente isso que este álbum de covers faz: reinterpreta os clássicos da Capcom em bolero e latin jazz, com percussão latina, guitarras apasionadas e metais suaves, mas sem perder uma nota das melodias originais que embalaram porradarias históricas. Assista aqui.
Ser(es) da América Latina
A coluna mais mutante da newsletter agora abre espaço para um dos encontros mais legais que rolaram na semana passada: Gilberto Gil e Charly García. Por que o encontro esses seres da América Latina é tão importante assim?
Gilberto Gil e Charly García se abraçaram nos bastidores do Movistar Arena, em Buenos Aires, onde Gil se apresentou pela turnê “Tempo Rei”, um dos últimos capítulos de sua despedida dos grandes palcos internacionais. Charly estava na plateia e, depois do show, foi direto ao camarim.
Gil é o arquiteto central do tropicalismo e da renovação da música brasileira; García, o protagonista incontestável da revolução do rock argentino. Juntos, ajudaram a transformar a música popular em forma de arte, em gesto político, em identidade coletiva para todo o continente. A relação entre os dois atravessa mais de 40 anos, e em 1981 chegaram a dividir o palco em uma apresentação que sobrevive em áudio raríssimo, guardado com devoção por fãs dos dois lados da fronteira. Ver os dois juntos de novo é a melhor coisa que o Tempo Rei poderia fazer por qualquer amante de música latino-americana.
Colofão
Esta edição foi finalizada no domingo em que quase trouxemos mais um Oscar para casa.







