Passe de letras
Nesta edição, craques em campo e nos livros, as homenagens dos 40 anos sem Borges, sequestro no Haiti e mais.
Neste mês, o futebol vai aparecer por aqui com mais frequência do que de costume. O que é que se pode fazer? É Copa. Os leitores que acompanham compulsivamente tabelas, escalações e estatísticas certamente não verão problema nisso; mas aqueles que passam ao largo do rude esporte bretão talvez recebam a notícia com menos entusiasmo. Para esse segundo grupo, cabe um alívio: o futebol só vai aparecer aqui na medida em que cruzar o caminho dos livros.
E esse cruzamento é mais antigo e mais rico do que costuma supor quem frequenta apenas o mundo da bola ou apenas o universo das letras. Eduardo Galeano transformou o esporte em matéria literária de primeira grandeza em Futebol ao Sol e à Sombra, livro que continua sendo uma das melhores portas de entrada para quem deseja compreender por que uma partida pode significar muito mais do que vinte e dois jogadores correndo atrás de uma bola. Afinal, poucos lugares oferecem tantos personagens memoráveis, tantos heróis improváveis e tantas reviravoltas quanto uma partida de futebol. Um gol aos 45 do segundo tempo, uma derrota impossível, uma rivalidade centenária ou um ídolo em decadência contêm mais enredo do que muitos romances que circulam por aí.
Nem todos os escritores, porém, se contentaram em observar o espetáculo da arquibancada. Muito antes de receber o Nobel de Literatura, Albert Camus era um jovem argelino promissor nas quatro linhas: atuou tanto no ataque quanto no gol, e até ganhou certo reconhecimento como goleiro do Racing Universitaire Algérois. Em 1930, aos 16 anos, teve seu desempenho elogiado pelo boletim informativo do clube, que destacou seu “jogo esplêndido”. Mais tarde, Camus diria que o futebol lhe ensinou muito sobre os seres humanos. Para alguém que desconfiava profundamente dos intelectuais que colocavam teorias acima das pessoas concretas, o futebol se colocava como um esporte onde as consequências dos atos se apresentam de forma imediata, sem notas de rodapé nem construções abstratas.
Quase um século depois e guardadas as proporções, outro autor teve seu momento de glória nos campos: o argentino Alejandro Droznes, autor de Libertadores da América, livro que investiga um dos torneios mais fascinantes e contraditórios do continente. Droznes participou recentemente do futebol de autores realizado durante A Feira do Livro, no Pacaembu. Não marcou gols, mas registrou uma assistência, fato que pouquíssimos brasileiros podem se gabar de terem alcançado. Saiu de campo e passou no estande da Pinard exibindo a panturrilha arranhada, “a marca dos craques”, segundo o próprio. A história tem um charme adicional porque parece fechar um círculo: depois de anos pesquisando personagens, partidas, rivalidades e lendas do futebol sul-americano, Droznes acabou experimentando, ainda que modestamente, a condição de protagonista dentro das quatro linhas.
Se os escritores se interessam pelo futebol há bastante tempo, o caminho inverso também parece cada vez mais frequente. Há um bom número de jogadores que se posicionam publicamente como leitores: Héctor Bellerín, lateral-direito do Betis, contou ao The Guardian que a literatura mudou sua vida. Gustavo Scarpa, jogador do Galo, tornou-se uma espécie de celebridade improvável ao compartilhar leituras de Kafka, Orwell, Machado de Assis e outros autores em suas redes sociais. Jhon Arias, cujo livro preferido é Cem Anos de Solidão, chegou a relacionar diretamente o hábito da leitura à sua inteligência dentro de campo, argumentando que os livros ampliam a capacidade de observação e interpretação da realidade. E a lista – ainda bem – continua.
No fim das contas, escritores seguem encontrando boas histórias no futebol, enquanto alguns jogadores descobrem nos livros algo que vai além do passatempo. Os primeiros transformam partidas em literatura; os segundos levam a literatura para lugares onde ela nem sempre foi esperada. Não parece um mau encontro.
Com informações do The Guardian e da Folha de S. Paulo.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
Sequestro no Haiti. O sequestro de James Boyard, inspetor-geral da polícia haitiana e chefe de gabinete do Ministério da Defesa, expôs mais uma vez a fragilidade do Estado diante do avanço das gangues armadas. Considerado um alvo de alto escalão, Boyard foi levado em Porto Príncipe em circunstâncias ainda pouco esclarecidas. Leia mais sobre o caso aqui.
Adeus, Taty e Gaspi. O fim de semana trouxe duas perdas muito diferentes, mas igualmente sentidas na Argentina. Aos 23 anos, o youtuber Gaspi Prim, conhecido por suas entrevistas de rua e pelo humor que conquistou milhões de seguidores, morreu em um acidente aéreo no Rio de Janeiro. Já aos 95 anos, morreu Taty Almeida, presidente das Mães da Praça de Maio e uma das vozes mais importantes da luta por memória, verdade e justiça após a ditadura argentina.
Borges eterno. Quatro décadas após sua morte, Jorge Luis Borges continua ampliando os limites da literatura. Um episódio do tremendo podcast Grandes Infelices percorre os bairros de Buenos Aires e os caminhos intelectuais que levaram o escritor a criar uma obra povoada por labirintos, espelhos, bibliotecas e paradoxos. Uma ótima porta de entrada – ou de retorno – ao universo do autor argentino. Ouça aqui.
Torcida latino-americana. A Pinard entrou no clima da Copa e bolou uma promoção inédita em sua história: se um país da América Latina erguer a taça, boa parte do catálogo entra em promoção com 50% de desconto durante dois dias. Uma forma de celebrar não apenas o futebol do continente, mas também as histórias que ajudam a entendê-lo. Agora é torcer – pras seleções daqui e para os titulos que você deseja entrarem na promoção.
Plaza de cultura
🎸Trilha da bola. Algumas Copas são lembradas pelos gols. Outras, pelas músicas que embalaram os autores desses gols. Maradona, Piqué, Caszely e o lendário Brasil tricampeão de 1970 inspiraram canções que atravessam gêneros, fronteiras e gerações. Do rock à cumbia, a lista a seguir mostra como o futebol também se transformou em matéria-prima da música popular latino-americana. Confira aqui.
🧤Goleiro psicodélico. Em uma época de uniformes discretos, Jorge Campos ousou entrar em campo vestindo uma explosão de cores. Com camisas desenhadas por ele mesmo, o mexicano transformou o próprio visual em espetáculo e virou um dos ícones mais improváveis do futebol dos anos 1990. Veja as imagens aqui.
🎤 Nossa cor marrón. Aos 19 anos, Milo J se tornou um dos nomes mais ouvidos da música argentina. Mas seu impacto vai além dos números: o cantor usa suas canções para questionar a ideia de uma Argentina homogênea e recolocar no centro da conversa as heranças indígenas, mestiças e periféricas do país. Entenda melhor aqui.
Ser da América Latina
Em março de 2018, duas equipes entraram em campo em um território autônomo do sul do México. De um lado, as Arcoiris Rebeldes. Do outro, as Jóvenas Rebeldes. As jogadoras usavam uniformes de futebol, chuteiras e meias até os joelhos. No rosto, porém, levavam os tradicionais passamontanhas zapatistas.
A partida abriu o Encontro Internacional, Político, Artístico, Esportivo e Cultural das Mulheres que Lutam, organizado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional, o EZLN. Mas havia uma regra pouco comum: cada vez que uma jogadora marcasse um gol, deveria correr até uma lousa colocada ao lado do campo e escrever uma mensagem.
Os gols vieram aos montes, e com eles surgiram frases como “Este gol é para vocês”, “Viva as mulheres do mundo” e “Que morra o capitalismo”. Ao final, as Arcoiris Rebeldes venceram por 6 a 0. Mas ninguém parecia especialmente preocupado com o placar.
Nas comunidades zapatistas de Chiapas, o futebol ocupa um lugar curioso: é um esporte popular, praticado por homens e mulheres, mas raramente aparece separado da vida coletiva. O campo é também espaço de encontro, de formação política e de construção comunitária.
Justamente por isso as futebolistas zapatistas são personagens tão singulares. Elas pertencem a um movimento que surgiu em defesa dos povos indígenas, desafiam estruturas tradicionalmente patriarcais dentro e fora de suas comunidades e, ao mesmo tempo, jogam o esporte mais popular do planeta.
Nas fotos daquela partida de 2018, os rostos estão cobertos e os nomes das jogadoras não aparecem nas camisas. Algumas atletas usam apenas codinomes de guerra, porque tanto ali quanto na vida o destaque não é a artilheira, a craque, a capitã ou a autora do gol. É a equipe.
Eduardo Galeano, tão apaixonado por futebol quanto por causas latino-americanas, provavelmente teria gostado da cena. Afinal, ali estava um futebol difícil de encaixar nas categorias habituais: competitivo, mas não obcecado pela vitória; político, mas sem perder a alegria do jogo.
Com informações da revista Jacobin Brasil e do portal Insurgencia Magisterial.
Colofão
Esta edição foi finalizada no domingo à noite, logo após a derrota do Equador diante da Costa do Marfim






