Para quem é esse livro?
Nesta edição, a maior polêmica literária de todos os tempos da última semana, a biografia de um gênio brasileiro do xadrez, Los Palmeras na Sul-Americana e mais.
Enquanto houver livro, haverá polêmica literária. A mais recente veio com sotaque e biquinho: o escritor francês Édouard Louis afirmou, em tom claramente depreciativo, que Elena Ferrante escreve romances “para adolescentes”. A frase pautou diversos vídeos de booktubers, virou debate em balcão de bar e agora desembarcou nesta newsletter – espero que já no final da sua viagem pela estrada das tretas de minúsculas causas. Fazer o quê? A literatura também se alimenta dessas pequenas guerras de reputação.
Escritores sempre tiveram opiniões bastante francas sobre os colegas de profissão. Na América Latina mesmo, uma das brigas mais conhecidas envolveu Roberto Bolaño e Isabel Allende. Bolaño não escondia o desprezo pelo sucesso da compatriota e dizia sem rodeios que ela é uma escribidora (algo como uma má escritora), quase como se o fato de vender milhões de livros fosse, por si só, uma suspeita estética. Allende respondeu nas páginas: no romance Mujeres del Alma Mía, a autora relembra o episódio referindo-se ao seu conterrâneo como um escritor chileno “cujo nome esqueci”. É treta pesada.
Olhando com um pouco mais de distância, dá para perceber que muitas dessas disputas seguem um padrão antigo: a tentativa de decidir o que é “literatura de verdade”. Em geral, a acusação oscila entre dois extremos: ou o escritor seria popular demais (e portanto suspeito), ou seria difícil demais (e portanto ilegível).
O argentino Macedonio Fernández passou décadas sendo visto como um excêntrico da literatura. Seus textos desmontavam o romance por dentro, misturando filosofia, humor e narrativa de um jeito que parecia desafiar qualquer forma conhecida. Em Museu do romance da eterna, por exemplo, o leitor atravessa dezenas de prólogos antes que o romance propriamente comece, como se o livro estivesse sempre na iminência de acontecer. Hoje Macedonio é lembrado como uma influência decisiva para Jorge Luis Borges, mas por muito tempo sua obra circulou sob o rótulo de hermética ou simplesmente ilegível.
Já o venezuelano Rómulo Gallegos enfrentou outro tipo de suspeita: seu clássico Dona Bárbara, com seus conflitos intensos entre poder, território e civilização, foi durante muito tempo associado ao chamado romance regional.Uma classificação preguiçosa, que trata a força da paisagem e das paixões do livro como excesso, quase um melodrama tropical fora de lugar na alta literatura. Hoje sabemos que o romance ajudou a fundar uma tradição inteira de narrativas latino-americanas sobre território, violência e poder.
Há ainda os casos em que a literatura é reduzida ao seu contexto político. O paraguaio Augusto Roa Bastos transformou o ditador latino-americano em matéria literária em Eu, o Supremo, criando um romance radical sobre linguagem e autoridade. Mesmo assim, houve quem preferisse enxergar ali apenas um livro de denúncia política, reduzindo a dimensão literária da obra à sua circunstância histórica.
O curioso é que, olhando em retrospecto, muitas dessas classificações envelhecem mais rápido do que os próprios livros. As acusações mudam de forma, mas raramente de lógica. Alguns autores seriam simples demais. Outros, complexos demais. Alguns escrevem para muita gente; outros, só para outros escritores. Será que o leitor está realmente interessado nisso?
Tenho para mim que, no meio desse pêndulo crítico de acusações e rótulos, aquilo que realmente importa segue ileso: os livros. Esses, felizmente, sobrevivem não apenas às polêmicas da semana, mas também às da década e a todas as próximas tretas literárias que, inevitavelmente, ainda virão.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
El libro está sobre la mesa. O presidente dos EUA, Donald Trump, lançou em Miami a iniciativa Shield of the Americas (“Escudo das Américas”), vista por analistas como tentativa de reforçar a influência de Washington na América Latina e conter investimentos de China e Rússia. Na cúpula com líderes de 12 países da região, Trump ainda causou polêmica ao afirmar que não pretende aprender espanhol. “Não vou aprender a língua de vocês, não tenho tempo”, afirmou. Veja a nota completa aqui.
Café não costuma falhar. A maior plantação urbana de café do mundo, que fica no Instituto Biológico, em São Paulo, recebeu cerca de 1.500 novas mudas na semana passada. O espaço funciona como um laboratório a céu aberto, onde pesquisadores avaliam a resistência de diferentes variedades de café às mudanças climáticas e ao avanço de pragas. A ideia é gerar dados que ajudem a adaptar a cafeicultura a cenários de temperaturas mais altas e maior instabilidade climática nas próximas décadas. Veja mais aqui.
Adeus ao mestre surrealista. O artista Pedro Friedeberg morreu aos 90 anos em San Miguel de Allende, no México. Arquiteto de formação, ficou conhecido por um estilo inconfundível que mistura arquitetura imaginária, padrões ópticos, símbolos e humor. Sua cadeira em forma de mão virou um ícone do design. Ao longo de mais de seis décadas de trabalho, Friedeberg construiu um universo visual exuberante que conquistou status cult. Aqui dá para ver algumas de suas obras – e até adquiri-las.
Ma che chique! A Pinard está de malas prontas para participar da Feira do Livro de Bolonha, que acontece de 13 a 16 de abril em Bolonha, na Itália. O evento divulgou o programa completo de sua edição de 2026, que inclui espaços como o BolognaBookPlus e o Bologna Licensing Trade Fair/Kids, dedicados à negociação internacional de direitos editoriais. Veja os destaques aqui.
Plaza de cultura
🎧 Avanti, Los Palmeras! O jornalista Leo Lepri começou no Instagram a série La buena música, dedicada a histórias em que futebol e música latino-americana se cruzam. No episódio mais recente, ele lembra a apresentação do grupo argentino Los Palmeras na final da Copa Sul-Americana de 2019. Antes de a bola rolar, um estádio inteiro cantou junto uma banda com mais de 50 anos de estrada, que é praticamente sinônimo da cumbia santafesina. Veja aqui.
📚 Isso me dá tic-tic nervoso. Um post que circulou no Instagram abriu uma conversa divertida entre leitores: aquelas pequenas coisas que fazem a gente torcer o nariz no meio da história. O autor da publicação cita desde clichês batidos até um detalhe curioso: a forma como os animais são retratados nos livros. E você: o que mais te irrita nos nossos amados livrinhos? Conta aí.
♟️ Mequinho ganha biografia. O prodígio do xadrez brasileiro Henrique Costa Mecking, o Mequinho, é tema de um novo livro que revisita sua ascensão meteórica nos anos 1970, quando chegou a ser chamado de “Pelé do xadrez”. Em Entre Bispos e Reis, que sai pela editora Todavia, o jornalista Uirá Machado narra a trajetória do jovem gênio que parecia destinado ao título mundial, até que uma virada pessoal e religiosa ajudou a afastá-lo dos tabuleiros. Leia a crítica de Reinaldo José Lopes aqui.
(Queria) Ser da América Latina
Excepcionalmente hoje, a coluna abre uma pequena exceção para trazer um trecho do relato do poeta canadense Pierre Nepveu, presente no livro Literatura e história na América Latina, da Edusp.
“É-me impossível abordar o tema que nos interessa nesse colóquio sem antes propor uma questão preliminar, a partir do meu ponto de vista, o de um intelectual e escritor dessa porção da América Setentrional onde se fala francês: o Québec faz ou não parte do que chamamos América Latina? A grande maioria dos quebequenses e provavelmente também dos franceses ficaria espantada diante de tal questão, tanto nos parece evidente que a América Latina é forçosamente tudo o que está ao sul do Texas e do Rio Grande; esse imenso território que, salvo algumas ilhas do Caribe onde se fala inglês, estende-se até a Terra do Fogo. A quase totalidade dos habitantes do Québec vive a menos de cem quilômetros dos Estados Unidos ou do Canadá inglês, e essa vizinhança, junto ao fato de que vivemos desde 1763 sob instituições políticas inglesas, marcou toda nossa história e fez de nós, indiscutivelmente, americanos do norte.
Todavia, eu sempre fui tomado pelas reflexões de Octavio Paz sobre o México e a América Latina, sobretudo na medida em que, apesar das enormes diferenças, elas coincidem com um aspecto essencial da história do Québec: a ausência de uma verdadeira tradição crítica e racionalista, proveniente do séculos das luzes. Quando Paz escreve: “Nós não tivemos século XVIII” e quando ele prossegue afirmando que, por causa dessa carência, “nós não conhecemos bem essa reação passional e espiritual contra a Crítica e suas construções que foi o romantismo. O nosso foi declamatório e exterior”, eu tenho a impressão de ouvir uma declaração sobre a história intelectual e cultural do Québec. O que nos liga mais profundamente à América Latina é, sem dúvida alguma, o fato de que nossa modernidade (social, política, cultural) teve de se constituir, ao contrário do que se passou nos Estados Unidos, contra nossa própria tradição católica, contra uma tradição de dogmatismo religioso que dava as costas ao mundo do liberalismo nascente.”
Trecho do texto “Poderes do Estrangeiro”, com tradução de Ivone Daré Rabello e Sandra G.T. Vasconcelos.
Colofão
Esta edição foi finalizada em um oito de março, num país que registrou recorde de feminicídios em 2025.







