Na travessia
A jornada de Maqroll pelos rios tropicais e a travessia de Ernesto pelos Andes são as histórias que a Pinard traz ao Brasil em julho.
Julho chega à Pinard com dois clássicos tardios da literatura latino-americana: A neve do almirante, a primeira novela da saga de Maqroll, o Gajeiro, personagem criado pelo colombiano Álvaro Mutis; e a tradução de Os rios profundos, obra-prima do peruano José María Arguedas e um dos romances mais importantes do século XX na América Latina. São dois livros que percorrem geografias distintas, mas que guardam em comum a ambição de descrever trajetórias de protagonistas inesquecíveis.
Um homem contra a corrente
Poucos personagens da literatura latino-americana possuem o magnetismo de Maqroll, o Gajeiro. Marinheiro sem navio fixo, aventureiro sem destino definido, filósofo involuntário das derrotas humanas, ele atravessa fronteiras, negócios fracassados, guerras esquecidas e paisagens remotas com uma mistura rara de lucidez e resignação.
Em A neve do almirante, primeiro volume da série que a Pinard publicará integralmente no Brasil, acompanhamos sua subida por um rio tropical rumo ao interior de um território quase mítico, em busca de uma serraria cuja existência parece cada vez mais incerta. Mas, como nas grandes viagens, o destino parece importar menos do que a travessia em si: o rio, a floresta, os encontros fortuitos e os pensamentos do protagonista compõem uma narrativa que avança lentamente, como uma correnteza que parece conhecer destinos ignorados pelos homens.
O crítico José Manuel Camacho Delgado observou que Maqroll se aproxima da figura moderna do anti-herói. O relato de suas aventuras equivale, em grande medida, à soma de seus fracassos. Em suas memórias não há feitos grandiosos nem conquistas memoráveis, mas sucessivos choques contra um mundo hostil, indiferente e frequentemente violento. Quase todos os negócios em que se envolve parecem fadados ao insucesso. A própria errância do personagem é marcada por uma consciência aguda da precariedade humana. Como o próprio Maqroll registra em seu diário, sua vida é uma caminhada “sempre à contrapelo, sempre danosa”.
Essa dimensão levou Camacho Delgado a aproximar o romance daquilo que a crítica Beatriz Pastor chamou de “discurso narrativo do fracasso”: uma tradição em que o valor da experiência não está na conquista, mas na sobrevivência, na resistência e na capacidade de transformar perdas em narrativa. Para Maqroll, o fracasso não é um capítulo à parte, não é um post que não vai para o feed colorido e bem-sucedido das redes. O fracasso aqui é a própria matéria da existência. A prosa de Mutis transforma portos decadentes, embarcações precárias e paisagens sufocantes em matéria literária de rara beleza. Se o mundo insiste em desmoronar ao redor de Maqroll, a linguagem permanece como uma forma de abrigo.
Nascido em Bogotá, em 1923, Mutis construiu uma obra admirada por escritores como Gabriel García Márquez e se tornou um dos grandes nomes da literatura colombiana do século XX. A publicação de A neve do almirante inaugura para os leitores brasileiros a possibilidade de acompanhar, pela primeira vez de forma completa, a extraordinária saga de Maqroll. O primeiro volume da saga conta com tradução de André Aires e 130 páginas que funcionam como porta de entrada para uma das grandes aventuras literárias da América Latina.
As vozes de um país
Hoje parece natural incluir Os rios profundos entre os grandes romances latino-americanos do século XX, mas o reconhecimento da obra esteve longe de ser imediato. Em seu célebre ensaio sobre o livro, Ángel Rama observou que a crítica peruana levou cerca de duas décadas para situá-lo no lugar de destaque que merecia e que a crítica latino-americana demorou ainda mais para compreender plenamente sua singularidade. Talvez porque o romance de José María Arguedas escapasse às classificações mais comuns de sua época.
Publicado em 1958, o livro acompanha Ernesto, um adolescente enviado para um internato religioso na cidade andina de Abancay. A partir dessa experiência, Arguedas constrói muito mais do que um romance de formação. O que emerge das páginas é um retrato complexo do Peru, atravessado por tensões sociais, conflitos culturais e diferentes formas de compreender o mundo.
Foi para explicar essa riqueza que Rama definiu a obra como uma “ópera dos pobres”. A comparação faz referência tanto à presença da música, dos cantos e das tradições populares que percorrem a narrativa quanto à sua estrutura. Assim como numa ópera, o romance alterna personagens individuais e vozes coletivas: ao redor de Ernesto surgem estudantes, soldados, padres, indígenas, camponeses e comerciantes. Cada figura possui sua individualidade, mas participa também de grandes conjuntos humanos que ganham protagonismo ao longo da narrativa. As chicheras, os colonos e os militares formam verdadeiros coros sociais que ajudam a contar a história do país.
Rama observa ainda que o romance avança por cenas sucessivas, quase como uma partitura. Há momentos de narração, de contemplação, de conflito, de canto e de exaltação lírica. Essa multiplicidade de registros faz com que a obra pareça constantemente oscilar entre a história, a música e o mito.
A origem dessa força está ligada à própria vida de José María Arguedas. Nascido em 1911, ele perdeu a mãe muito cedo e cresceu em estreita convivência com comunidades indígenas quéchuas. Aprendeu sua língua, absorveu sua visão de mundo e transformou essa experiência numa das obras mais originais da literatura latino-americana. Como antropólogo e escritor, dedicou sua vida a construir pontes entre culturas frequentemente tratadas como incompatíveis.
A edição de Os rios profundos traz tradução de Josely Vianna Baptista, uma das maiores especialistas brasileiras em literatura latino-americana.
O que diz quem já leu
“José María Arguedas, no sentido de ter sido o ‘defensor dos habitantes originários da América do Sul’, é o maior romancista do nosso tempo.”
— Martin Seymour-Smith, em Guide to Modern World Literature
“Que livro mais bonito. Estou fascinada pela literatura indigenista e mestiça da América Latina. Se existem livros que representam esta terra, são aqueles que dão conta da mistura de culturas, e não os que se concentram excessivamente em uma perspectiva eurocêntrica. Tomara que um dia eu escreva um livro assim, verdadeiramente intercultural.”
— Arelis Uribe, no Goodreads
“José María Arguedas trouxe ao mundo intelectual peruano um olhar íntimo e genuíno sobre o universo andino. Basta ler a extraordinária prosa de Os rios profundos — sempre imaginativa, sempre inquietante — para comprovar isso.”
— César Ferreira, no site Latin American Literature Today
“É inquietante querer decifrá-lo, mas dele só consegui extrair a sensação de que as andanças da nossa vida raramente cumprem o propósito que buscamos alcançar, aquilo que imaginamos conquistar quando as iniciamos.”
— Verónica Villa García, no Goodreads
“O fluxo da narrativa, como o rio, é único e cronológico, com um destino fixo e alguns saltos ao passado que ampliam o caudal de informações, mas que, ainda assim, desembocam sempre no fracasso e na ameaça da morte, que espreita.”
— Felipe Carrillo Alvear, em seu blog
“Com sabedoria, Mutis nos convida a seguir os navios, as rotas gastas e melancólicas. A não parar e a evitar os portos; a subir os rios e nos confundir com a selva. Devemos resistir à terra firme: nós somos o veleiro e a viagem.”
— Juan Nalerio, no Goodreads



