Mês de novidades
Nesta edição, um dossiê especial sobre os nossos próximos lançamentos
Março começou e achei que seria uma boa desculpa para experimentar um formato novo por aqui. A proposta é simples: abrir cada mês com um destaque especial para os lançamentos da Pinard. As colunas de dicas culturais, de notícias latino-americanas e os depoimentos dão lugar a seções sobre filmes que dialogam com as obras do mês, reações de leitores que já passaram por esses livros e trechos marcantes de cada obra. Um texto mezzo análise, mezzo curiosidades. A ver no que dá. Aliás, se tiver um tempo, me diga o que acha dessa ideia. Sempre é bom lembrar que essa newsletter é uma obra aberta e faz mais sentido quando é construída com quem lê.
Para inaugurar essa nova proposta, eis os lançamentos do mês de abril, que já estão em pré-venda: Cartucho: Relatos da luta no norte do México, de Nellie Campobello, e As batalhas no deserto, de José Emilio Pacheco. Eles marcam a estreia da Coleção Curtíssimas, dedicada a obras breves que ocupam lugar central na literatura latino-americana. Mas essa não é a única semelhança entre os dois títulos: são clássicos mexicanos que narram a Revolução a partir do olhar da infância.
Infância em tempos de guerra
Antes de Pedro Páramo se tornar um dos romances mais influentes da literatura latino-americana, já havia, no México, um livro em que vivos e mortos conviviam na mesma paisagem e em que a Revolução aparecia como experiência íntima. Publicado em 1931, Cartucho antecipa soluções narrativas que mais tarde seriam associadas à obra de Juan Rulfo.
Escrito por Nellie Campobello, o livro não se organiza como um romance tradicional. São 56 breves fragmentos sem ordem cronológica clara, numa estrutura que reproduz o funcionamento da memória, com associações e retornos inesperados a momentos de maior intensidade emocional.
A própria Campobello viveu a infância no norte do México, em uma região marcada pelos confrontos da Revolução Mexicana. Sua família tinha vínculos com os seguidores de Pancho Villa, mas o livro não assume o tom de defesa ideológica. Ao contrário, ele desloca o foco do campo de batalha para o espaço doméstico e desmonta a narrativa épica que começava a consolidar a Revolução como mito fundador da nação.
A violência é uma personagem do livro: atravessa as casas, percorre as ruas de Parral, escangalha a rotina dos mexicanos. Os soldados têm nomes, apelidos, gestos particulares; alguns brincam com as crianças, outros desaparecem de um dia para o outro. A morte é presença constante, narrada sem solenidade – apenas como constatação de uma ausência.
O livro fica ainda mais perturbador por se construir a partir do olhar infantil. Não há grandes explicações sobre o sentido da violência; há a naturalidade com que ela se infiltra no cotidiano. Outro acerto do livro, que poderia até ser mais bem explorado, é a centralidade feminina, que marca uma ruptura decisiva na obra: a mãe da narradora participa das conversas políticas, negocia, sofre perdas e toma posição.
Se a Revolução Mexicana produziu números grandiosos e discursos heroicos, Cartucho devolve singularidade às vidas que poderiam ter sido reduzidas a estatística. Cada fragmento resgata um rosto, um gesto, uma presença.
Amor, memória e modernização
Na novela As batalhas no deserto, de José Emilio Pacheco, o que começa como a história de uma paixão infantil logo se revela algo maior: um retrato íntimo de um país em transformação. O amor impossível de Carlos pela mãe de seu melhor amigo vai além do drama pessoal e se coloca como um ponto de fratura que expõe a moral rígida, a hipocrisia social e as tensões de uma sociedade que se pretendia moderna, mas permanecia profundamente conservadora.
A narrativa se passa na Cidade do México das décadas de 1940 e 1950, momento em que o país acelerava seu processo de modernização. O discurso oficial celebrava os ideais da Revolução, enquanto a capital se expandia, absorvia influências norte-americanas e consolidava uma cultura urbana marcada pelo consumo, pela publicidade e por novas hierarquias sociais. O bolero que toca no rádio, as marcas estrangeiras, os carros recém-lançados, as aulinhas de inglês: cada detalhe compõe um mosaico de um México que tenta se reinventar sem saber exatamente o que está deixando para trás.
Carlos narra a história já na maturidade, o que acrescenta ao livro uma camada decisiva: em vez de apenas recordar o passado, ele o examina à luz do tempo. A infância deixa de ser tratada de maneira idealizada, e se transforma em espaço de conflito, marcado por uma mistura de culpa, vergonha e desejo. Ao revisitar o seu primeiro amor, o narrador expõe a rigidez moral de uma sociedade que transformava sentimentos em desvio e silêncio em regra.
Essa clareza emocional encontra eco na própria linguagem do romance, que é leve, direta e só aparentemente simples. Pacheco era conhecido por revisar obsessivamente seus escritos e por não acreditar em versões definitivas. Ao longo dos anos, voltou à novela, ajustou frases, cortou excessos, afinou o ritmo. A aparente simplicidade que o leitor encontra na página, portanto, é resultado de um trabalho paciente de depuração.
Autor central da chamada Generación de Medio Siglo, Pacheco transitou entre poesia, ensaio, tradução e jornalismo, consolidando-se como uma das vozes mais respeitadas da literatura mexicana contemporânea. Em 2009, recebeu o Prêmio Cervantes, o maior reconhecimento da literatura em língua espanhola. Ainda assim, é essa narrativa breve que o aproximou de gerações de leitores, tornando-se leitura escolar sem perder potência emocional.
A intensidade da história é tamanha que muitos leitores a tomam como autobiográfica. O próprio autor respondia com ironia a essa hipótese – talvez porque toda ficção que alcança certo grau de verdade emocional pareça inevitavelmente confessional.
Com informações da Paris Review e do Retrospect Journal.
Filmes que conversam com os livros
🎥 Mariana, Mariana. Baseado em As batalhas no deserto, o filme dirigido por Alberto Isaac traduz para a tela a atmosfera de repressão moral e transformação social do México do pós-guerra. A adaptação mantém o eixo central mas amplia o contexto visual da modernização da Cidade do México, reforçando o contraste entre desejo íntimo e vigilância social.
🎥 Roma. Embora ambientado décadas depois, o filme de Alfonso Cuarón dialoga com os dois livros pela perspectiva da memória e da infância. Assim como em Cartucho, a história política entra na narrativa pelos espaços domésticos. E, como em As batalhas no deserto, o passado é reconstruído não como nostalgia, mas como investigação emocional e social.
O que diz quem já leu
Cartucho:
“Se não tivesse sido por uma recomendação, provavelmente eu jamais o teria escolhido. O título não me parece muito atraente; o tema me interessa, mas não de forma especial. Eu teria perdido muito: teria deixado de conhecer pequenas miniaturas, microficções fortíssimas, um livro que deveria ocupar outra posição na literatura — e não apenas na mexicana.”
O usuário César Carranza no Goodreads
“Enorme, magistral. Eu gostaria que tivessem me pedido para lê-lo no ensino fundamental e de relê-lo todos os anos desde então.”
Alaíde Ventura Medina, autora de Todos los rotos
“Os relatos são curtos, passam rápido, atravessam o leitor – são como balas. Tratam da Revolução e de uma de suas fases mais obscuras, portanto não estão isentos de violência.”
Nea Poulain, escritora mexicana
As batalhas no deserto:
“As batalhas no deserto é um acerto de contas com o passado e uma tentativa de preservar o que foi, o que já não é – esse amor e esse horror que José Emilio Pacheco nos mostra com tocante simplicidade.”
Fernanda Melchor, autora de Temporada de furacões e Páradais
“Há pouco que eu possa dizer sobre As batalhas no deserto: é um livro encantador, imperdível e inesquecível. O danado consegue um pequeno milagre em pouquíssimas páginas, tirando uma fotografia de um passado cuja essência não tem prazo de validade”
O usuário York no Goodreads
“O interessante é que aquilo que poderia parecer um fato pequeno se transforma numa espécie de fissura por onde se enxerga toda a estrutura social da época. A história de Carlos e Mariana é o ponto de partida para falar de como os sentimentos são reprimidos, da moral rígida daquele momento, das aparências familiares, do medo do que foge à norma e da maneira como os adultos projetam suas próprias angústias sobre as crianças.”
Juan José Ramos em seu canal no YouTube
Trechos matadores
“Mas na minha idade ninguém pode arranjar garotas. Só pode se apaixonar em segredo, em silêncio, como eu por Mariana. Apaixonar-se sabendo que tudo está perdido e não há nenhuma esperança.”
“Foi fuzilado na frente do povo. (Existem muitos retratos desse ato.) Como última vontade, pediu para não morrer na frente de um americano que estava entre a multidão. ‘Não quero morrer na frente desse’, disse energicamente o tímido e jovem general.”






