Letras peruanas
Nesta edição, vozes literárias para celebrar a independência do Peru, crise diplomática entre Brasil e Argentina, Rosalía atrás da poesia chilena e mais.
Hoje é dia 28 de julho, data em que o Peru celebra sua independência, proclamada pelo libertador argentino San Martín em 1821. Ainda que o momento político do país seja bastante conturbado, a independência do país me parece um pretexto bem válido para trazer três indicações de vida e obra de escritoras e escritores que, cada um à sua maneira, deixaram sua marca na literatura do Peru.
Angélica Palma era filha de Ricardo Palma, o escritor que passaria anos reconstruindo a Biblioteca Nacional do Peru após o incêndio provocado pela Guerra do Pacífico, e que ficaria famoso pela obra Tradiciones peruanas, crônicas históricas cheias de humor e sabor colonial. Crescer na casa do “patriarca das letras peruanas” despertou em Angélica o gosto pela escrita, mas a colocou sob a sombra do sobrenome paterno. A solução inicial foi usar os pseudônimos Araceli e Marianela para publicar seus textos na revista Prisma. Só depois da morte do pai ela passaria a usar o próprio nome sem reservas: escreveu romances e crônicas de viagem de tom romântico e costumbrista, criou personagens femininas que percebiam sua posição subordinada e reagiam a ela em vez de aceitá-la caladas, e venceu um concurso literário internacional em Buenos Aires com o romance Coloniaje romántico. Sem se propor isso conscientemente, sua obra antecipava um pensamento feminista que ainda engatinhava no Peru daquele início de século, e ela transitava sem dificuldade entre literatura, jornalismo, crônica de viagem e opinião – um leque de gêneros incomum para uma escritora da época. Depois da morte do pai, dedicou parte da vida a preservar sua obra: supervisionou a edição completa das Tradiciones peruanas para a editora Calpe, em Madri, e escreveu a biografia Ricardo Palma, el tradicionista, de 1927.
Antes dela, e em boa parte apagada pela mesma lógica que Angélica enfrentou, esteve Lastenia Larriva de Llona, nascida em Lima em 1848. Como tantas escritoras da época, também recorreu ao disfarce e assinou estudos sociológicos no jornal El Comercio com o pseudônimo masculino de N. Mayer. Casada com o poeta equatoriano Numa Pompilio Llona, viveu entre Lima, Arequipa e Guayaquil, sempre escrevendo poesia, romances e publicando matérias e artigos em periódicos. Em 1888 saiu o romance Un drama singular e, décadas depois, já perto do fim da vida, Cuentos, de 1919, considerado o primeiro volume de contos publicado por uma mulher no Peru. São catorze relatos fantásticos repletos de fantasmas, mistérios e coveiros, que, sob a superfície sobrenatural, tocam em temas incômodos: a subordinação das mulheres, a situação dos povos indígenas.
Da mesma geração, uma colega de Larriva de Llona nas rodas literárias de Lima: Mercedes Cabello de Carbonera, nascida em Moquegua em 1845. Começou a escrever poesia ainda adolescente, escondida atrás do pseudônimo de Enriqueta Pradel, e mudou-se para Lima em meados da década de 1860, no auge do romantismo. Frequentou as tertúlias literárias promovidas pela escritora argentina Juana Manuela Gorriti e o Ateneo de Lima, e foi ali que trocou o romantismo herdado de Gorriti pelo realismo e o naturalismo, então uma novidade na literatura hispano-americana. Em 1888 publicou Blanca Sol, romance sobre uma mulher da alta sociedade limenha que troca a moral por ambição e luxo. A trama foi considerada ousada demais para a época, e rendeu a Mercedes a acusação de escrever de um jeito “pouco feminino”. A crítica não era gratuita: Cabello de Carbonera defendia abertamente a emancipação das mulheres e a importância da educação feminina, e hoje costuma ser lembrada entre as primeiras vozes feministas do Peru.
A quarta sugestão começa longe da capital, nos Andes, e é a mais dura das quatro. José María Arguedas nasceu em Andahuaylas em 1911 e perdeu a mãe aos três anos. O pai, advogado, vivia em viagens constantes pelo interior do país, em parte fugindo de perseguições políticas, e acabou se casando de novo com uma mulher que detestava o pequeno Arguedas. Praticamente exilado na própria casa, ele absorveu o quéchua e o mundo andino como língua materna afetiva, tanto quanto o espanhol; anos depois, ele diria que devia àquela infância dura o acesso a uma cultura que de outro modo jamais teria conhecido tão de dentro. Dessa experiência nasceu, entre outros livros, Os rios profundos, de 1958. É um romance de formação: um garoto de quatorze anos atravessa o sul do Peru com o pai e vai parar num internato em Abancay, onde a violência e a hierarquia entre os alunos funcionam como retrato reduzido da própria sociedade peruana. Arguedas escreveu o livro tentando fazer o espanhol carregar a sintaxe e a musicalidade do quéchua – um esforço de mais de dez anos de trabalho, segundo relatos da época – e o resultado é uma prosa que ainda hoje soa como nenhuma outra: um Peru andino falando em primeira pessoa, sem tradutor.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
Crise entre irmãos. A tensão entre Brasil e Argentina ganhou um novo capítulo. Após declarações de Javier Milei contra Lula e ministros do STF, o governo brasileiro convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos. O episódio aprofunda o desgaste diplomático entre os dois países. Leia mais aqui.
Messi na torcida. Enquanto aguarda o retorno aos gramados pelo Inter Miami, Lionel Messi aproveitou a folga para assistir a uma partida da quarta divisão argentina em Rosário, sua cidade natal. Entre autógrafos e fotos com torcedores, o craque mostrou que o amor pelo futebol vai muito além dos grandes palcos. Veja mais aqui.
8 de janeiro colombiano? A eleição de Abelardo de la Espriella reacendeu o debate sobre desinformação, influência digital e legitimidade democrática. O historiador Tâmis Parron analisa a crise política colombiana e discute o que ela pode ensinar à esquerda brasileira às vésperas das eleições de outubro. Assista à análise aqui.
Democracia em retirada. a Nicarágua de Daniel Ortega parece dar mais um passo rumo ao autoritarismo. A Assembleia Nacional anunciou reformas constitucionais que podem ampliar ainda mais a concentração de poder nas mãos do governo e enfraquecer os já frágeis mecanismos democráticos do país. Leia mais aqui.
Plaza de cultura
🧉 Mate no chão. O que começou como uma brincadeira virou fenômeno regional. Com milhares de seguidores e centenas de registros, a página @matesderrubados coleciona fotos de cuias tombadas e acidentes envolvendo chimarrão, transformando pequenos dramas cotidianos em motivo de humor compartilhado entre brasileiros, uruguaios e argentinos. Veja as cenas aqui.
🌴 Magia real. Gabriel García Márquez passou a vida rejeitando o rótulo de criador do “realismo mágico”. Para o escritor colombiano, a verdadeira tarefa dos autores latino-americanos não era inventar mundos fantásticos, mas tornar críveis as extraordinárias realidades do continente. Esse texto do El País revisita essa discussão que parece nunca sair da pauta literária. Leia aqui.
📖 Rosalía e a poesia chilena. Em passagem por Santiago, a cantora espanhola aproveitou uma pausa na turnê para visitar uma livraria independente e sair de lá com livros de poesia chilena debaixo do braço. Entre as compras estavam obras da poeta Winétt de Rokha, reforçando a conexão da artista com a literatura e a cultura latino-americana. Confira fotos do encontro aqui.
🎶️ Justiça tardia. Foi preso o último condenado pelo assassinato de Víctor Jara, cantor e compositor chileno transformado em símbolo da resistência à ditadura de Augusto Pinochet. Mais de meio século após o crime, a captura de Nelson Haase Mazzei encerra um dos capítulos mais longos da busca por justiça em torno da morte do artista. Leia mais aqui.
Seres da América Latina
No alto dos Andes peruanos, a cerca de 5 mil de altitude, figuras cobertas por pesadas roupas de lã negra e máscaras de rosto escuro atravessam a neve em silêncio. São os ukukus, personagens centrais da peregrinação do Senhor de Qoyllurit’i, uma das mais importantes manifestações religiosas da América Latina, reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
A peregrinação acontece todos os anos na região de Cusco e reúne dezenas de milhares de pessoas em um ritual que mistura elementos do catolicismo com antigas crenças andinas ligadas às montanhas e às forças da natureza. Segundo a tradição, os ukukus ocupam um lugar especial entre o mundo humano e o mundo espiritual. Seu nome está associado ao urso andino, animal que, no imaginário local, habita uma zona de fronteira entre a natureza selvagem e a sociedade. Durante a festa, eles atuam como guardiões da ordem, orientando os peregrinos e zelando pelo cumprimento dos rituais.
Em algumas comunidades, os iniciantes passam por ritos de entrada e recebem orientações dos membros mais experientes, preservando uma tradição transmitida entre gerações. A festa reúne imagens cristãs, montanhas sagradas, danças ancestrais e devoção popular. Nem totalmente humanos, nem inteiramente míticos, os ukukus lembram que, nos Andes, a espiritualidade raramente separa a natureza da religião.
Colofão
Esta edição foi finalizada na manhã de segunda-feira, reunindo todas as forças possíveis diante da ressaca pós-Flip.






