Lançamentos de agosto
Nesta edição, conheça as obras que passam a integrar o catálogo da Pinard a partir deste mês.
O mês que nunca termina finalmente está entre nós e trouxe com ele três romances que atravessam o continente latino-americano por caminhos muito diferentes, mas com o mesmo impulso de dar forma literária à memória e à história vivida por gente comum. Uma jornalista mexicana que passou dois anos lavando roupa e cuidando de galinhas só para ganhar a confiança de uma velha soldadera. Um venezuelano que escreve em inglês, mas carrega a Venezuela inteira no ritmo das frases. Uma argentina que fugiu clandestina de um país para recuperar o corpo do marido assassinado, e décadas depois deixou como testamento literário um livro de receitas.
Enquanto não te vejo, meu Jesus
Mais do que “escrever”, a palavra que talvez defina com precisão os mais de setenta anos de carreira de Elena Poniatowska seja “escutar”. Foi ouvindo as histórias de gente comum e incomum que ela construiu praticamente tudo o que publicou, de crônicas e entrevistas até romances. E foi justamente escutando que nasceu Enquanto não te vejo, meu Jesus, seu livro de 1969. Para escrevê-lo, ela passou mais de dois anos batendo, semana após semana, na porta de Josefina Bórquez, uma ex-combatente da Revolução Mexicana que não estava nem um pouco interessada em contar sua vida a uma jornalista de classe média. A confiança só veio depois de muitas visitas e de Poniatowska aceitar, sem reclamar, se ocupar das tarefas domésticas que a anciã lhe impunha como espécie de permuta. Do resultado dessas conversas nasceu Jesusa Palancares, narradora fictícia que empresta a Bórquez uma voz e um destino literário que o país raramente reservava a mulheres pobres.
Essa disposição para ouvir quem normalmente não é ouvido não nasceu por acaso. Nascida na França como Hélène Elizabeth Louise Amélie Paula Dolores Poniatowska Amor, descendente de nobreza polonesa, Elena chegou ainda menina ao México e entrou no jornalismo em 1954 depois de conseguir, quase sem querer, uma entrevista com um embaixador americano num coquetel. Foi contratada para a editoria social, porque na redação da época mulher só escrevia sobre casamento. Décadas mais tarde, ironicamente, seria sob um pseudônimo masculino que inscreveria o manuscrito vencedor do Prêmio Alfaguara de 2001, como se ainda precisasse driblar as mesmas portas fechadas do início da carreira.
É Jesusa Palancares quem conduz o romance, contando a própria vida em primeira pessoa, com uma língua dura e sem meias palavras. Ela narra a infância pobre em Oaxaca, o casamento cedo demais com um soldado violento e os anos em que seguiu esse marido pelo país afora como soldadera, cozinhando, cuidando de feridos e aprendendo a atirar em meio à Revolução. Enviuvada ainda jovem, muda-se para a Cidade do México, onde vai de emprego em emprego (lavadeira, empregada doméstica, operária) sem nunca deixar de driblar a pobreza com uma mistura de humor ácido e desconfiança do mundo. No meio do caminho, encontra abrigo numa seita espírita, que lhe oferece a crença na reencarnação como uma espécie de consolo: se essa vida foi dura demais, talvez a próxima seja mais branda. É esse tom irônico, cansado, mas nunca resignado que fez de Jesusa uma das narradoras mais lembradas da literatura mexicana do século XX.
Foi esse mesmo compromisso com histórias como a de Jesusa que tornou Poniatowska a primeira mulher a receber o Prêmio Nacional de Jornalismo do México e a única mexicana a vencer o Cervantes, o mais importante da língua espanhola. O júri destacou sua “dedicação exemplar ao jornalismo” e seu “firme compromisso com a história contemporânea”; ao receber o prêmio, ela se comparou a um Sancho Pança de saias – alguém que já não tem moinhos de vento contra os quais lutar, mas segue ao lado dos andarilhos comuns, carregando a sacola, confiando no que eles têm a dizer.
O gosto da liberdade
Alejandro Puyana escreveu O gosto da liberdade inteiro em inglês, mas o livro não larga o espanhol. Há gírias, xingamentos e outras expressões idiomáticas que ele se recusa a traduzir, como se fizessem parte do mobiliário da história e não pudessem ser trocados de lugar. É uma decisão que corrobora com a própria história do escritor, já que Puyana só se mudou para os Estados Unidos aos 26 anos – hoje ainda mora por lá, em Austin, no Texas – e continuou escrevendo como quem carrega um sotaque que não pretende perder.
O romance segue duas linhas de tempo. Na primeira, ainda nos anos 1960, Stanislavo – filho de uma refugiada polonesa e deslocado numa Caracas que não sabe bem onde encaixá-lo – troca a vida confortável da capital pela guerrilha nas selvas venezuelanas, treina camponeses e se apaixona por Emiliana, enfermeira de mãos firmes. A lealdade que ele deve a seus companheiros de luta vai custar caro, e é dessa dívida que nasce o resto da história: décadas depois, já sob o governo de Hugo Chávez, María, a filha do casal, tenta sobreviver como empregada em Caracas, sem saber ainda o que a ligação entre ela e aquele passado revolucionário significa. O que Puyana consegue, ao alternar as duas épocas, é mostrar como o idealismo de uma geração vira, na geração seguinte, sobrevivência pura, sem cinismo nem ilusão.
Stanislavo tem um parente real: Teodoro Petkoff, guerrilheiro venezuelano que abandonou as armas depois da invasão soviética à Tchecoslováquia e se tornou jornalista incômodo tanto para a direita quanto para o chavismo, morto em 2018 e a quem o livro é dedicado. Puyana cresceu ouvindo histórias sobre esse amigo da família – figura real demais para ser só inspiração, ficção demais para caber inteira num personagem –, e é esse trânsito entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido que dá ao romance seu tom sério na denúncia, mas disposto a arrancar humor até da desgraça, tradição que a literatura latino-americana pratica há gerações. Não à toa, o livro venceu em 2024 o Westport Prize for Literature – prêmio que já havia consagrado, em edições anteriores, uma autora do peso de Zadie Smith.
O poço de Yocci
Amor, fantasma e aventura de capa e espada: é essa mistura pouco óbvia que sustenta O poço de Yocci, romance ambientado no noroeste da Argentina que salta entre dois momentos separados por vinte anos, opondo o idealismo da Guerra da Independência à violência mais cínica das guerras civis que vieram depois. O nome do livro nem é invenção – existiu de fato um poço em Salta apelidado assim, derivado da palavra quéchua para “saída”. É no mínimo sintomático que uma autora obcecada por fugas, exílios e recomeços tenha escolhido justamente essa palavra para dar título à sua história mais assombrada.
Não é força de expressão dizer que a vida de Gorriti competia em intensidade com qualquer coisa que ela inventasse no papel. Ela nasceu em Salta em 1814 e, quando ainda menina, viu a família ser expulsa da Argentina rumo ao exílio boliviano, perseguida pela ditadura de Rosas. Anos depois, casou-se com um militar boliviano que chegaria à presidência do país mas acabaria assassinado dentro do próprio palácio de governo. Gorriti precisou fugir da Bolívia às pressas e na surdina para conseguir recuperar o corpo dele sem ser capturada pelos inimigos que o haviam matado.
Foi em Lima, criando sozinha as duas filhas do casal, que ela se firmou como escritora, tendo publicado seu primeiro conto ainda nos anos 1840. Ao longo dos anos, Gorriti se tornaria uma das pioneiras do folhetim sul-americano, ao lado de nomes consagrados do romantismo como Esteban Echeverría – mas com uma diferença de temperamento importante, já que preferia flagrar o amor e o horror de qualquer lado da guerra em vez de escolher facção. Só voltaria a pisar em Buenos Aires, cidade de onde havia sido expulsa quando criança, depois da queda de Rosas, décadas mais tarde. E encerraria a carreira com um gesto que soa quase como piada interna entre amigos: o último livro que publicou não foi um romance nem um panorama histórico, mas um livro de receitas no qual consta a famosíssima receita de empanada de Salta.
O que diz quem já leu
“‘Épico’ não chega nem perto de descrever este romance extraordinário. A liberdade é uma festa é tão vívido e maravilhoso quanto o melhor dos sonhos, tão perturbador e inesquecível quanto o pior dos pesadelos. Dizem que não é possível colocar o mundo inteiro dentro de um romance, mas Puyana chega muito perto. Que presente ele deu aos leitores; um presente profundo, devastador e inspirador.”
— O escritor Junot Díaz, na edição norte-americana da obra
“Gorriti ocupa um lugar central no romantismo, e toda a sua narrativa se desenvolve sob esse signo. A languidez, a tristeza, as sombras e os contrastes são traços que a caracterizam. Ela está atenta aos movimentos e acontecimentos culturais do mundo, tanto do restante da América Latina quanto dos Estados Unidos e da Europa. É a anfitriã dos viajantes que chegam às nossas margens trazendo suas peças musicais, suas vozes, suas obras de arte ou seus livros.”
— A crítica literária María Gabriela Mizraje, na revista Cuadernos hispanoamericanos
“Elena Poniatowska utiliza os recursos do testemunho como uma estratégia narrativa que lhe permite articular uma crítica radical da sociedade mexicana no que diz respeito à condição da mulher. Assim, o processo criativo é mais complexo do que pode parecer à primeira vista, e suas implicações alcançam camadas muito mais profundas.”
— Maria Inés Lagos-Pope, professora da Universidade da Virgínia




Uau, lançamentos interessantíssimos esse mês! Fiquei bem curioso por esse da Elena Poniatowska, ando querendo ler mais sobre a Revolução Mexicana ainda mais depois de terminar A Morte de Artemio Cruz!