Em dose tripla
Nesta edição, a ficha completa dos nossos três lançamentos do mês de maio
Maio chegou nos enchendo de orgulho. É que pela primeira vez nesses seis anos de existência, vamos lançar três livros em um mesmo mês. Pois é, e pensar que, há não muito tempo, a Pinard publicava três livros no ano inteiro. No. ano. inteiro. Desculpe a digressão, mas é difícil fingir costume com o que conseguimos fazer neste mês de maio.
Mas vamos aos títulos: em Libertadores da América, Alejandro Droznes atravessa a história política e futebolística latino-americana para mostrar como o esporte se tornou espaço de disputa, memória e identidade. Já em O ano em que falamos com o mar, Andrés Montero retorna à infância e ao imaginário chileno para narrar uma história de perda, reconciliação e afetos atravessados pelo destino. E então vem Paradiso, de José Lezama Lima, um clássico absoluto, radical, que leva a linguagem até seus próprios limites.
Futebol e identidade
Poucos elementos percorrem a América Latina com a mesma intensidade quanto o futebol. O rude esporte bretão há muito transcendeu as quatro linhas para se tornar linguagem coletiva, ritual popular e ferramenta política. Em Libertadores da América, o argentino Alejandro Droznes parte justamente dessa dimensão simbólica para construir um livro que bate com as duas pernas: a da história continental e a da cultura das canchas.
Para escrever o livro, o autor percorreu arquibancadas latino-americanas narrando partidas e atmosferas de estádio enquanto costurava esses relatos a episódios decisivos das independências do continente. O resultado é um texto que alterna o calor das torcidas, os cânticos e rivalidades populares com personagens históricos, projetos de emancipação e promessas de unidade latino-americana que atravessam os séculos.
O título remete imediatamente à principal competição de clubes da América Latina, mas também às figuras históricas responsáveis pelo nosso grito comum de liberdade. Droznes rememora os processos de independência latino-americanos e investiga como seus nomes, imagens e discursos foram apropriados, transformados e reciclados ao longo do tempo – inclusive pelo futebol. O continente que um dia sonhou com projetos coletivos de emancipação aparece agora mediado por estádios, escudos, transmissões de TV, rivalidades nacionais e paixões populares.
Existe algo particularmente latino-americano nessa relação entre futebol e política. Enquanto em muitos países europeus o esporte foi frequentemente tratado como entretenimento apartado da vida pública, na América Latina ele se confundiu com processos de construção nacional. Ditaduras instrumentalizaram vitórias esportivas; governos democráticos utilizaram clubes como símbolo de integração popular; torcidas transformaram estádios em espaços de afirmação identitária e também de conflito. O futebol surge no livro como território contraditório: ao mesmo tempo mecanismo de alienação e espaço de pertencimento coletivo; espetáculo milionário e memória afetiva; ferramenta de manipulação política e linguagem genuinamente popular.
Essa tensão ajuda a explicar por que tantos escritores latino-americanos se aproximaram do futebol com fascínio e desconfiança simultâneos: Eduardo Galeano, fanático pelo Nacional de Montevidéu, escreveu que o futebol profissional “é a única religião sem ateus”. Roberto Fontanarrosa, torcedor obsessivo do Rosario Central, transformou partidas de bairro em épicos afetivos. Osvaldo Soriano, que não perdia um jogo do San Lorenzo, enxergava no esporte uma espécie de tragicomédia nacional permanente. Isso sem falar nos nossos craques tupiniquins: Mário Filho, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, João do Rio, Otto Lara Resende e tantos outros. Droznes agora se insere nessa seleção, mas amplia o campo ao conectar o futebol à própria ideia de formação da América Latina.
Linguagem como vertigem
Existem livros que contam histórias e existem livros que parecem tentar reinventar a própria possibilidade da literatura. Paradiso, do cubano José Lezama Lima, pertence à segunda categoria.
Publicado em 1966, o romance ocupa um lugar singular na literatura latino-americana. Embora frequentemente associado ao chamado “boom latino-americano”, Paradiso funciona quase como um corpo estranho dentro do movimento: enquanto autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar buscavam formas narrativas capazes de dialogar com um público internacional cada vez maior, Lezama Lima parecia escrever na direção oposta: criando uma obra deliberadamente densa, barroca e por vezes impenetrável.
A trama acompanha a formação de José Cemí, desde a infância até a juventude em Havana. Mas resumir a obra dessa maneira é enganoso, meu caro leitor. O livro é muito mais do que isso, e a própria trajetória de Lezama ajuda a entender a singularidade da obra. Diferentemente de muitos escritores latino-americanos de sua geração, ele quase não saiu de Cuba. Viveu grande parte da vida em Havana, cercado por livros, discípulos e longas conversas literárias. Ainda assim, construiu uma obra profundamente cosmopolita, como se tentasse condensar o mundo inteiro dentro da linguagem.
Em Paradiso, o enredo frequentemente cede espaço para digressões filosóficas, descrições labirínticas, imagens poéticas e associações inesperadas. Lezama Lima constrói frases que parecem expandir continuamente o sentido das coisas. Objetos cotidianos ganham dimensões míticas, cenas domésticas se transformam em acontecimentos cósmicos, conversas aparentemente banais desembocam em reflexões metafísicas. Para ler Paradiso você vai precisar abandonar qualquer expectativa de linearidade e aceitar o ritmo hipnótico de uma escrita que parece funcionar por excesso.
O bem do mar
Em O ano em que falamos com o mar, o chileno Andrés Montero retorna a um território recorrente da literatura latino-americana: as recordações de infância como espaço em que realidade e imaginação não decantam completamente.
A história acompanha o reencontro de dois irmãos gêmeos depois de anos de distanciamento. Como acontece em boa parte da obra de Montero, a trama íntima rapidamente se mistura a elementos do imaginário popular chileno, do fantástico e da tradição oral. Ambientado numa ilha remota e isolada do continente durante uma pandemia, o romance transforma a paisagem numa presença viva: o mar, a neblina, as histórias que circulam entre os moradores e as lendas locais acabam funcionando quase como personagens da narrativa.
Essa atmosfera é potencializada por uma das escolhas mais interessantes do livro: a história não pertence apenas aos protagonistas, mas à própria comunidade da ilha. O autor constrói uma espécie de narração coral em que as vozes dos habitantes se complementam, comentam acontecimentos, alimentam os mistérios do lugar. O resultado é um romance que parece ter sido contado coletivamente, como aquelas histórias que atravessam gerações e vão ganhando novas camadas a cada vez que são narradas.
Ao mesmo tempo, O ano em que falamos com o mar se conecta a uma tradição mais ampla da literatura latino-americana em que o fantástico surge como extensão interpretativa da experiência cotidiana. Pactos com o diabo, superstições, coincidências inexplicáveis e relatos populares convivem com afetos familiares, ressentimentos antigos e silêncios acumulados ao longo dos anos. Montero trabalha tudo isso numa chave luminosa, quase delicada, evitando o excesso de dramatização e preferindo uma escrita que avança como conversa ao redor de uma fogueira.
O que diz quem já leu
Libertadores da América:
“Uma extraordinária viagem pelas experiências pessoais do autor acompanhando campanhas da Copa Libertadores, que se entrelaçam com o processo de independência da América do Sul. As figuras de San Martín e Bolívar ressoam de forma vibrante ao longo de uma leitura fluida e acessível. A escrita do autor retrata com precisão os detalhes que encantam os fãs de futebol, como os arredores dos estádios e o comportamento do público, no variado cenário futebolístico do Cone Sul latino-americano.”
Fabián Valenzuela no Goodreads
“O autor percorre o continente conectando partidas da Copa a episódios da independência e às suas figuras históricas. Relato de viagem e narrativa histórica avançam em paralelo, sem jamais se fundirem completamente entre gols e altiplanos, pais da pátria e estádios.”
Didi no Goodreads
Paradiso:
“É um romance denso como a própria vida – e, como ela, belo e desafiador. Um livro que precisa ser lido, uma experiência que todo leitor deveria ter, pois ali se conhece a vida retratada em sua máxima intensidade.”
Eduardo Taylor no Goodreads
“Em seus catorze capítulos, a obra retrata a família e os amigos de José Cemí, mas o faz de uma maneira em que o leitor encontra ecos de García Márquez, Thomas Mann e James Joyce: como Gabo, a linguagem é assombrosa; como Mann, seus personagens conversam até esgotar os assuntos que os ocupam; como Joyce, Lezama expulsa o leitor, em certos trechos, por meio de uma linguagem poética obscura.”
Daniel no Goodreads
O ano em que falamos com o mar:
“Em meio a tantos livros internacionais, lê-lo me fez respirar a ‘alma chilena’, conduzido por uma história muito bonita sobre reencontros, os diferentes caminhos que a vida toma e o amor entre irmãos.”
Maria Ignazia Urzua no Goodreads
“Andrés Montero é meu escritor chileno favorito. Nenhum de seus livros decepciona; este é um carinho na alma, uma preciosidade. Daqueles que eu chamo de ‘pequenas jóias’. Quando terminei a leitura, pensei: tomara que pudéssemos sempre ler uma literatura tão boa assim.”
Florencia Campana no Goodreads






