É hexa!
Nesta edição, o país que bate um bolão no catálogo da Pinard, as eleições no Peru, o primeiro trem solar da América Latina e mais.
Na próxima quinta-feira, 11 de junho, a Copa do Mundo começa oficialmente no lendário Estádio Azteca, na Cidade do México. Diante de sua torcida, a seleção mexicana fará a partida de abertura contra a África do Sul, dando início a mais uma tentativa de conquistar um título que ainda falta em sua história. Mas, no campeonato de países mais publicados pela Pinard, o México já é campeão, ou melhor, hexacampeão. Nesses seis anos de editora, são seis títulos publicados por nós, a mesma quantidade de títulos argentinos no nosso catálogo.
E, claro, não se trata apenas de quantidade. Poucas literaturas do continente conseguiram produzir, ao longo do século XX, principalmente, uma combinação tão rica de estilos, temas e vozes. Dos ecos da Revolução Mexicana às transformações da modernidade urbana, das tensões sociais de Chiapas às incursões pelo fantástico, os seis livros mexicanos da Pinard oferecem uma espécie de viagem por algumas das melhores páginas já escritas em língua espanhola.
Entre elas está As batalhas no deserto, de José Emilio Pacheco, uma das novelas mais admiradas da literatura mexicana contemporânea. A história de um amor impossível vivido por um menino na Cidade do México dos anos 1940 torna-se também um retrato melancólico de um país em transformação. Com uma prosa elegante e precisa, Pacheco constrói uma reflexão sobre memória, passagem do tempo e as ilusões do progresso.
Se Pacheco olha para as lembranças de uma infância urbana, Cartucho, de Nellie Campobello, volta seus olhos também infantis para um dos acontecimentos decisivos da história mexicana: a Revolução. Publicado em 1931, o livro reúne relatos curtos inspirados nas experiências da autora durante os anos de conflito. Em vez de transformar a guerra em épico, Campobello registra fragmentos de vidas, gestos e episódios que revelam a dimensão humana de um período frequentemente contado apenas pelos vencedores.
Também fundamental e também com a ótica da infância chega Balún Canán, de Rosario Castellanos, que é considerada uma das grandes intelectuais mexicanas do século XX. Aqui estamos diante de um romance que examina as relações entre indígenas e proprietários rurais em Chiapas com rara sensibilidade e profundidade. A autora expõe desigualdades históricas e conflitos que ajudaram a moldar o país que se conhece hoje.
Já A semana das cores, de Elena Garro, apresenta uma escritora que durante décadas permaneceu menos conhecida do que merecia. Os contos reunidos no volume transitam entre sonho, mito e realidade com absoluta naturalidade. Hoje, Garro é reconhecida como uma das autoras mais originais da literatura latino-americana, capaz de abrir caminhos que outros escritores tornariam famosos mais tarde – a autora é considerada uma das pioneiras do realismo mágico, estilo que consagrou Gabriel García Márquez.
No time dos clássicos incontornáveis está A morte de Artemio Cruz, de Carlos Fuentes, que é um dos autores fundamentais – ainda que menos reconhecido – do chamado “boom latino-americano”. Enquanto um magnata agoniza em seu leito de morte, a narrativa recompõe sua trajetória e, ao mesmo tempo, a história do México pós-revolucionário. Com sua estrutura inovadora e sua ambição histórica, o livro ajudou a redefinir os rumos do romance em língua espanhola. Um romance tão inusitado e sem precedentes na literatura mexicana que começa com o protagonista… indo ao banheiro.
Completa o sexteto As mortas, de Jorge Ibargüengoitia. Inspirado em um caso criminal real que chocou o México, o romance combina humor mordaz, ironia e crítica social para construir uma narrativa tão divertida quanto perturbadora. Ibargüengoitia foi um observador implacável das contradições de seu país, e poucos escritores souberam rir delas com tanta inteligência.
Independentemente do resultado dessa Copa, o México já pode se gabar de suas conquistas literárias.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
Bibliocídio. Documentos revelados em um processo contra a Anthropic mostram que a empresa manteve um projeto secreto, batizado de Projeto Panamá, para adquirir e escanear em massa obras físicas destinadas a alimentar seus modelos de IA, e depois destruir todos os exemplares. A dinâmica veio à tona após a divulgação de mais de 4 mil páginas de documentos judiciais em uma disputa sobre direitos autorais movida por escritores. Leia mais aqui.
Bola murcha. Ele já deu assistência para gol no último jogo da Colômbia antes da Copa, mas é fato que James Rodríguez desembarcou nos Estados Unidos cercado por uma pequena polêmica. O camisa 10 da Colômbia foi criticado após ignorar Antonella Petro, filha do presidente Gustavo Petro, durante um evento de despedida da seleção antes da Copa do Mundo. Veja a picuinha completa aqui.
Prêmio BN 2026. Estão abertas até 8 de julho as inscrições para o Prêmio Literário Biblioteca Nacional, que contempla treze categorias e oferece R$ 30 mil aos vencedores. É um incentivo e tanto para você tirar aquele conto esquecido na gaveta. Leia o edital completo aqui.
Plaza de cultura
🦅 O pai do Condorito. Todo mundo conhece o personagem Condorito, mas quase ninguém se lembra de Pepo, seu criador. Para acabar com isso, acaba de pintar uma minissérie documental em quatro episódios que resgata a trajetória de René Ríos Boettiger, criador do personagem mais popular dos quadrinhos chilenos e figura central da era de ouro das HQs no país. Veja o trailer aqui.
🎤 Dua guia. Quem segue a Dua Lipa nas redes sabe que ela curte saber mais sobre as cidades onde se apresenta (aka visitar locais históricos e comer e beber do bom e do melhor). Pois agora você tem como seguir os passos da cantora: é que ela montou seu próprio roteiro afetivo da Cidade do México, com recomendações de bares, restaurantes e museus, como o Tamayo e a Casa Luis Barragán, que ela descreve como “arquitetura feita de emoção”. Acompanhe o guia completo aqui.
🚆 Trem bom. A Argentina colocou nos trilhos o primeiro trem solar da América Latina. Movido por energia limpa, o Tren Solar de la Quebrada cruza as paisagens coloridas da Quebrada de Humahuaca, em Jujuy, conectando povoados históricos dos Andes em um trajeto de 42 quilômetros. Neste vídeo dá para ter uma ideia de como funciona e qual é o trajeto do trem.
Seres da América Latina
No extremo sul do Chile, onde o Pacífico encontra florestas úmidas, neblina e centenas de ilhas, existe um lugar em que o sobrenatural parece ter feito morada. Durante séculos, muitos acreditaram que os bruxos realmente moravam no arquipélago de Chiloé.
Os bruxos chilotas ou brujos de Chiloé nasceram da fusão entre as crenças dos povos indígenas huilliches e chonos e as tradições trazidas pelos colonizadores espanhóis. O resultado foi uma mitologia única, povoada por navios fantasmas, criaturas marinhas e feiticeiros capazes de se transformar em animais ou voar durante a noite.
No centro dessas histórias está uma misteriosa organização chamada Recta Provincia, também conhecida como La Mayoría. Segundo a tradição, ela funcionava como uma sociedade secreta de bruxos que possuía hierarquia própria, códigos internos e até uma espécie de governo paralelo espalhado pelas ilhas do arquipélago. Sua sede ficaria numa caverna próxima ao povoado de Quicaví, guardada por criaturas fantásticas como o Invunche.
O mais curioso é que a fronteira entre mito e história nunca ficou totalmente clara. Em 1880, autoridades chilenas realmente levaram a julgamento membros acusados de integrar a Recta Provincia, num processo que ajudou a transformar as lendas em parte permanente da memória local. Ainda hoje, esse episódio é lembrado como um dos capítulos mais peculiares da história chilena.
As histórias atribuíam aos bruxos poderes extraordinários: voar usando um colete mágico chamado macuñ, provocar doenças, mudar de forma ou viajar até o lendário navio fantasma Caleuche, uma embarcação iluminada que surgiria nas noites de neblina pelos canais de Chiloé. O isolamento geográfico do arquipélago permitiu que essas lendas sobrevivessem por séculos.
Se você se interessa por histórias como essa, não deixe de ler O ano em que falamos com o mar, de Andrés Montero.
Colofão
Esta edição foi finalizada na tarde fria de 8 de junho, logo após mais uma edição d’A Feira do Livro à beira do Pacaembu.








Desse sexteto, por enquanto, só li (e amei!) A semana das cores e As Mortas, mas A morte de Artemio Cruz está aqui, da estante, me olhando, só esperando sua vez. Talvez após a estreia do México na Copa, seja o momento ideal pra pegar ele.
Mas estou igualmente curioso pelos outros!