Despacho literário
Nesta edição, os escritores advogados do catálogo, os bons números da literatura nacional lá fora e o irresistível sorvete de coco da Guadalupe.
Acho que o costume não existe mais – e longe de mim querer revivê-lo –, mas, na minha época de universitário, era comum e bastante desejável aproveitar o almoço do dia 11 de agosto com os amigos que estudavam Direito. A data marca o Dia do Advogado no Brasil, e a comemoração era ideal para glutões como eu: o dia do “pendura”, em que os estudantes davam uma cartada no restaurante e simplesmente não pagavam a conta. Tinha até versinho: “Senhor garçom, tire a conta da mesa e coloque o sorriso no rosto. Seria muita avareza cobrar no 11 de agosto.”
Pois bem, já que hoje é 11 de agosto e o almoço tá garantido, resolvi celebrar a data de outro jeito: vasculhando o catálogo da Pinard atrás de togas escondidas nas estantes. Encontrei um quarteto e tanto.
Rómulo Gallegos entrou para o curso de Direito na Universidad Central de Venezuela, mas a paixão pela literatura o fez abandonar os estudos antes de se formar. Ainda assim, o Direito não sumiu de sua obra: em Dona Bárbara, o protagonista Santos Luzardo é justamente um homem de leis, formado para civilizar o llano a golpe de escritura e lindeiro, disputando terras e poder com a temível Dona Bárbara.
José Emilio Pacheco também flertou com a Faculdade de Direito da Universidad Nacional Autónoma de México e chegou a colaborar com a revista estudantil ligada a ela antes de abandonar o curso aos 19 anos para virar, definitivamente, escritor. Em As Batalhas no Deserto, o amor proibido do jovem Carlos é julgado o tempo todo pelos rígidos códigos morais da sociedade ao seu redor. E é justamente essa sociedade que dá sua implacável sentença ao personagem.
Patrick Chamoiseau foi o mais próximo do universo jurídico dos três: formou-se em Direito e Economia Social na França e chegou a trabalhar como educador social junto a um tribunal de menores na Martinica, antes de se dedicar à literatura. Na obra Texaco, vencedor do Prêmio Goncourt, a comunidade que dá nome ao livro resiste à demolição diante de um urbanista enviado pelo Estado – um verdadeiro litígio de posse, terra e memória, travado não em tribunal, mas na voz de quem por ali existiu e resistiu.
No livro Castigo divino, Sergio Ramírez deixa bem claro o seu repertório jurídico ao reconstruir um caso real de assassinato na Nicarágua dos anos 1930. Ele transforma a obra em um processo judicial inteiro ao intercalar, na narrativa, cartas, depoimentos, laudos periciais, declarações e recortes de jornal. A sensação que fica para o leitor é a de imersão completa nos próprios autos do caso.
Com exceção de Chamoiseau e Ramírez, os outros dois aparentemente não apresentaram o TCC na faculdade de Direito, mas todos deixaram alguém pagando a conta em seus livros e esperando o julgamento de você, leitor. Fica assim então a sentença desta edição, e dela não cabe recurso: leia Gallegos, leia Pacheco, leia Chamoiseau, leia Ramírez. Mas sem pedir “pendura”, porque Pinard rima com muita conta para pagar.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
Tragédia colombiana. Um terremoto de magnitude 7,4 atingiu a Colômbia na manhã de ontem, provocando a morte de ao menos 111 pessoas, segundo os primeiros balanços das autoridades. Classificado pelo Serviço Geológico Colombiano como o abalo mais forte registrado no país na última década, o tremor foi sentido em praticamente todo o território colombiano e também em áreas do Panamá e do Equador. Relatos de moradores indicam que os efeitos do sismo chegaram até Manaus, no Amazonas. Leia mais aqui.
Ainda estou aqui. Um dos casos de desaparecimento mais antigos ligados à ditadura de Augusto Pinochet teve um desfecho inesperado. Um exame de DNA confirmou que Bernarda Vera Contardo, desaparecida desde os anos 1970, está viva e mora na Argentina. A descoberta encerra décadas de buscas e investigações conduzidas por familiares e organizações de direitos humanos. Leia mais aqui.
Múmias infectas. Pesquisadores identificaram vestígios do vírus da varíola em múmias de cerca de 500 anos encontradas no norte do Chile. A descoberta reforça a hipótese de que a doença chegou às Américas com os europeus e teve papel decisivo na devastação de populações indígenas. Leia a reportagem completa aqui.
Padrão exportação. As editoras apoiadas pelo programa Brazilian Publishers movimentaram US$ 8 milhões em negócios internacionais no primeiro semestre de 2026. Houve uma mudança no perfil das exportações do setor e a venda de direitos autorais ganhou força, passando a representar 44,65% do total negociado, com cerca de US$ 4 milhões. A comercialização de livros físicos segue predominante, movimentando aproximadamente US$ 5 milhões. Veja mais aqui.
De volta. Brasília foi escolhida para receber o Congresso Mundial de Biblioteconomia de 2028, principal encontro internacional do setor. O evento acontecerá entre os dias 21 e 24 de agosto e marcará o retorno do congresso à América Latina após 17 anos. Segundo a entidade que organiza o evento, a escolha reconhece os esforços recentes da capital brasileira para promover uma visão mais inovadora e empreendedora da biblioteconomia. Veja mais aqui.
Plaza de cultura
🗣 Fofoquinha mapuche. Muito antes de significar fofoca ou intriga, o termo idiomático cahuín tinha outro sentido. A palavra vem do termo mapuche kawiñ, usado para designar encontros entre líderes indígenas para discutir decisões importantes da comunidade. Com o passar do tempo, essas reuniões passaram a incluir bebida, conversas informais e histórias sobre a vida alheia. A palavra acabou se transformando no sinônimo de boato e mexerico que os chilenos usam até hoje. Veja essa fofoca, ou melhor, esse estudo etimológico aqui.
🎬 Sucesso argentino cruza a fronteira. Depois de conquistar o público na Argentina e em toda a América Latina, a série Meu Querido Zelador ganhará uma versão brasileira para os cinemas. Matheus Nachtergaele assumirá o papel do zelador manipulador que sabe tudo sobre os moradores do prédio, enquanto Gregório Duvivier interpretará o síndico disposto a mudar as regras do jogo. As filmagens começam em agosto, no Rio de Janeiro. Até lá, vale a pena ver ou rever a série original.
🥥 Pour s’en lécher les doigts. Nas praias de Guadalupe, no Caribe francês, vender sorbet de coco é mais do que um trabalho: é uma tradição passada de geração em geração. Dina aprendeu a preparar a receita aos oito anos, ao lado da mãe. Hoje, com a ajuda dos filhos, ela levou esse clássico caribenho para Saint-Denis, na França. No vídeo a seguir, ela mostra como está mantendo viva essa deliciosa e trabalhosa tradição. Veja aqui.
Seres da América Latina
Em La Paz, durante algumas semanas do ano, é possível encontrar casas, carros, passaportes, diplomas universitários, notas de dinheiro e até escritórios inteiros em formato de miniaturas. Não são brinquedos nem lembrancinhas, mas representações de desejos para o futuro.
Essas miniaturas fazem parte das Alasitas, uma das festas populares mais tradicionais da Bolívia, celebrada no dia 24 de janeiro. Durante a festividade, milhares de pessoas compram pequenos objetos que simbolizam aquilo que esperam conquistar: uma casa, uma viagem, prosperidade financeira, sucesso na carreira ou saúde.
A tradição está ligada à figura de Ekeko, uma divindade andina associada à abundância e à prosperidade. Representado como um homem sorridente carregado de mercadorias, o Ekeko costuma aparecer com bolsas cheias de alimentos, objetos e riquezas, simbolizando a ideia de que nunca deve faltar o necessário para viver.
A origem da festa remonta às tradições indígenas anteriores à colonização espanhola, mas, ao longo dos séculos, incorporou elementos do catolicismo e da vida urbana moderna. Em 2017, as Alasitas foram reconhecidas pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Colofão
Esta edição foi finalizada na manhã de segunda, na ressaca pós-debate entre os candidatos a governador da maior cidade da América Latina.






