De caniço e samburá
Nesta edição, o Carnaval dos nossos vizinhos, a história e o acervo do maior sebo da América Latina, o discurso do Bad Bunny e mais.
“Mas… Que delícia, Manuel, o carnaval do Rio! Que delícia, principalmente, meu carnaval! Se estivesses aqui, a meu lado, vendo-me o sorriso camarada, meio envergonhado, meio safado com que te escrevo: ririas. Ririas cheio de amizade e de perdão.”
Mário de Andrade em carta a Manuel Bandeira no ano de 1923
Aquele sorriso camarada, meio envergonhado, meio sacana. A alegria que não precisa de motivo para se justificar, nem tampouco de culpa para se arrepender. A sensação de que a gente está um pouco fora de órbita, confortavelmente alienado. Os sintomas estão todos aí: é Carnaval, são carnavais. Tem o meu, tem o seu, tem o que a gente compartilha e tem os da vizinhança.
Se expandisse a investigação carnavalesca para os países vizinhos, Mário de Andrade – esse notório viajante, turista aprendiz por vocação – certamente encontraria outras imagens para completar sua definição: baldes d’água voando de varandas em Buenos Aires, coros afinados rindo da política em Montevidéu, corpos que dançam por fé, não por distração, em Oruro. Porque o Carnaval na América Latina é essa soma meio improvável de excesso, memória, invencionices, fé e devassidão.
Na Argentina, a festa sempre foi disputa de espaço. Ainda nos tempos coloniais, ricos e pobres celebravam, ainda que cada um no seu quadrado. Enquanto as elites se protegiam em ambientes privados, a festa popular ocupava as ruas do que viria a ser a capital Buenos Aires. Água, ovos, perfumes improvisados, jogos coletivos: o Carnaval escorria pelas calçadas e escandalizava quem preferia chamá-lo de barbárie. Durante a ditadura, foi proibido, mas voltou com ainda mais força para celebrar a democracia – já viu esse enredo em algum lugar? Hoje não é exatamente uma mistura de sangue, suor e cerveja, mas segue público, irreverente e impossível de conter.
No Peru, o Carnaval percorre toda a extensão do país. Ao norte, Cajamarca canta suas matarinas, músicas que puxam a multidão como marchinhas andinas. Lá para baixo, em Arequipa, encontram-se fantasias completas, competições de dança que transformam as ruas em palco e os passantes em jurados. Entre uma região e outra, costumes da serra, da costa e da selva se misturam que nem água, farinha, tinta e barro. Nota: 10.
Em Oruro, na Bolívia, a festa começou como procissão, virou peregrinação e hoje se impõe como uma folia incansável. Tudo gira em torno da Virgem de Socavón, figura central da devoção local, associada à proteção dos mineiros e às camadas mais profundas da história andina. O cortejo avança por quilômetros até o santuário erguido em sua homenagem. Em meio aos trajes elaborados e às coreografias repetidas, a cidade se transforma num ritual coletivo, onde fé e celebração caminham juntas.
O México aposta na multiplicidade. Cada estado inventa seus próprios personagens, suas cores, seus ritos. Em Veracruz, um dos carnavais mais populares do país, o espetáculo domina: carros alegóricos, música alta, festa herdada do século XIX e constantemente reinventada. Em Tlaxcala, máscaras de madeira, cartolas de plumas, figuras que satirizam a burguesia europeia e personagens que misturam crítica e brincadeira.
E se ainda houver fôlego, que tal o Carnaval mais longo do mundo? No Uruguai, a folia se estende por semanas e tem as suas tradições. Nos tablados, palcos montados ao ar livre, grupos se revezam noite após noite. A murga mistura canto coral, figurino exagerado e letras afiadas para satirizar políticos e as notícias do cotidiano. O candombe, de herança africana, entra em cena com seus tambores graves e cadenciados, fazendo o chão vibrar e puxando desfiles que celebram a identidade local. Já os humoristas e parodistas apostam no riso direto: encenam histórias conhecidas, distorcem personagens públicos, brincam com a memória coletiva.
Se parar para pensar, todos esses carnavais fazem a mesma coisa, cada um à sua maneira: suspendem o peso mundano das nossas costas por alguns dias. Mas se você não tá muito na onda de curtir o “schlschlsch monótono das serpentinas”, como diria o carnavalesco convertido Mário de Andrade, tudo bem também. Tem um montão de livro da Pinard te esperando para curtir o bloco do eu sozinho direto do sofazón de la salita.
Com informações de Agência Brasil, O Globo e IMS.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
Crie corvos e te arrancarão os olhos. Ao menos 22 editoras brasileiras tiveram obras obtidas e armazenadas ilegalmente pela Anthropic, criadora do chatbot Claude, segundo levantamento inédito do Núcleo. A empresa é alvo de uma ação coletiva nos Estados Unidos e se comprometeu, em 2025, a pagar US$ 1,5 bilhão a detentores de direitos autorais usados no treinamento de sistemas de IA. Leia a reportagem aqui.
México ajuda Cuba. O governo mexicano anunciou o envio de alimentos a Cuba em meio à crise energética na ilha. A medida ocorre após os EUA ameaçarem tarifas a países que forneçam petróleo ao país. A presidente Claudia Sheinbaum negocia com Washington o fornecimento de petróleo, enquanto Donald Trump afirma manter diálogo com autoridades cubanas. Leia o texto aqui.
F%$@k, ICE! Ao vencer o prêmio de Melhor Álbum de Música Urbana no Grammy, Bad Bunny foi aplaudido ao usar o discurso para criticar o ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos. “Não somos animais”, afirmou o artista, defendendo que é preciso responder ao ódio com amor. O posicionamento ecoou outros discursos da noite, como o de Billie Eilish, e reforçou o espaço da premiação como palco para debates políticos e humanitários. Veja mais aqui.
Duas pré-vendas. Fevereiro começa com novidades por aqui. A Pinard está com duas pré-vendas abertas: Um Beijo de Dick, do colombiano Fernando Molano Vargas, e Atrás fica a terra, de Arianna de Sousa-García, autora venezuelana. Esses são dois livros da novíssima coleção Pinard Contemporânea, que nasceu para ampliar o nosso diálogo com a literatura latino-americana da atualidade.
Plaza de cultura
📚 Poeira literária. Que tal passear pelo maior sebo da América Latina sem sair de casa? O Sebo do Messias, que fica do ladinho da Praça da Sé, no coração de São Paulo, é o protagonista do mais recente episódio de Senta que lá vem a história, do UOL. O vídeo conta a história do estabelecimento e revela algumas de suas raridades. Veja aqui.
🇦🇷 Argentina em 25 livros. A espetacular revista Seúl realizou uma das tarefas mais ingratas do mundo literário: montar uma lista com os 25 melhores livros argentinos de não ficção do século XXI. A seleção é muito bem fundamentada e reúne obras de crônicas, autoficção, história, investigação, memória e muito mais. Como toda lista, não é consenso, mas gera um burburinho dos bons. Quantos você já leu? Confira aqui.
🎶 Boêmia de regresso. Nicky Jam está de volta com Bohemio, um disco dançante, cheio de mistura de ritmos e colaborações em boa parte das faixas. A música que abre o álbum já dá a letra do que vem por aí: “Yo hago lo que me sale de los cojone’”. Liberdade criativa, atitude e zero vontade de pedir desculpa – exatamente o que a América Latina está precisando agora. Ouça aqui.
Ser da América Latina
A ideia aqui é convidar um ser da América Latina para nos contar o que é ser da América Latina. A convidada da vez é Giovanna Barreto, criadora do perfil @gicaindica no Instagram.
“Lembro de uma aula de uma optativa sobre América Latina que tive durante a graduação em Relações Internacionais, na qual o professor perguntou quem ali se considerava latino-americano. Várias pessoas não levantaram a mão, mas para mim foi e quase sempre tinha sido óbvio: o Brasil fazia parte da América Latina, logo eu era latino-americana. Tendo nascido e crescido em um estado que divide a fronteira com o Paraguai (Mato Grosso do Sul), a proximidade cultural com o país vizinho fez com que o tereré, a sopa paraguaia, as guarânias estivessem presentes na minha vida, e consequentemente, um senso de latino-americanidade estivesse mais evidente para mim.
Eu sabia que era latino-americana, embora não entendesse muito bem o que isso significava, pois, assim como a ideia de América Latina foi inventada, nossa identidade foi construída por diversas narrativas em disputa. Como então é possível encontrar unidade no emaranhado de ritmos, cores, idiomas, sabores, cheiros, prosas e poesias que formam a América Latina? Para além dos processos históricos violentos sob os quais todos os países latino-americanos foram submetidos, o que eu vejo e percebo são pessoas, que num mar de diferenças, encontram maneiras semelhantes de se expressar culturalmente, seja na literatura, na música, na culinária, nas festas populares ou até mesmo no futebol.
No fim das contas, acho que não há como definir o que é ser da América Latina, tampouco existe uma só maneira de ser latino-americano; afinal, ser latino-americano envolve uma série de contradições e paradoxos que estão presentes no nosso continente desde sua formação. No entanto, se eu tivesse que definir de alguma maneira, eu diria que ser da América Latina significa sentir-se pertencente a esse território e cultura, para além das fronteiras delimitadas pela ideia de Estado-nação, ao mesmo tempo em que se reconhece nossas diferenças.”
Colofão
Esta edição foi finalizada no dia dois de fevereiro, dia de festa no mar.







A Giovanna definiu tudo! É exatamente isso que penso e sinto também, nós pulsamos América Latina, mesmo sem nem perceber. É nossa diversidade que nos faz tão únicos e especiais.