As letras e o poder
Nesta edição, escritores no poder, curso sobre cinema e literatura, jogador argentino contra o preconceito e mais.
Participar de feiras literárias é um barato. Neste último fim de semana, eu fui um dos vendedores da Pinard na Flipaulista, no Center 3, em São Paulo, e saí de lá com muitas conversas bacanas ecoando na cachola. Uma delas até rendeu a pauta que você tá prestes a ler. Eu estava apresentando o catálogo do estande para uma leitora e percebi que vários de nossos autores haviam ocupado cargos no governo de seus respectivos países. Em vários casos, a obra e a atuação pública se alimentavam: a trama era o esboço do que viria ou a elaboração interpretativa do que já estava em curso.
O venezuelano Rómulo Gallegos é um desses casos. Em Dona Bárbara, seu romance mais emblemático, o que se desenha é um território onde se alternam a violência arcaica e o ideal de ordem. Não é difícil perceber como essa tensão literária ecoa em sua breve, mas simbólica, passagem pela vida política. Em 1948, ele se tornou o primeiro presidente eleito democraticamente na história da Venezuela. Seu governo enfrentou forte oposição de setores conservadores, da Igreja e, principalmente, das forças armadas, que viam com desconfiança a rapidez das reformas. Gallegos foi deposto por um golpe nove meses depois de tomar posse.
Saindo da Venezuela chegamos à Colômbia, terra de Jorge Isaacs, autor de María, uma narrativa profundamente íntima, marcada por afetos, perdas e uma sensibilidade bastante incomum. Fora das páginas, porém, a vida de Isaacs esteve longe desse refúgio: ele participou de conflitos armados, ocupou cargos públicos e se envolveu diretamente nas disputas que moldavam a Colômbia do século XIX. Foi defensor do Olimpo Radical e da Constituição de 1863, além de ter atuado como congressista e secretário de educação, e defendido a educação laica e os direitos das populações indígenas e afrodescendentes. O contraste entre a intimidade da obra e a intensidade da atuação política de seu autor é cristalino.
No caso de Alcides Arguedas, a relação entre escrita e política se apresenta de forma ainda mais explícita. O romance Raça de Bronze é também um diagnóstico rigoroso das estruturas sociais bolivianas, com atenção especial às metodologias e dinâmicas de exploração das populações indígenas. Sua atuação diplomática amplia esse olhar, no sentido de que Arguedas escreve com a experiência de quem observa o país tanto por dentro quanto de fora, e que compreende a literatura como ferramenta crítica que funciona como prolongamento de sua atuação pública.
Há também o exemplo de um dos autores de nossos últimos lançamentos. Sarmiento escreveu Facundo ou civilização e barbárie durante o exílio no Chile, enquanto trabalhava como jornalista e se opunha ativamente à ditadura de Rosas. O próprio Sarmiento definiu a obra como “a visão de um país por um jovem ansioso de atuar por dentro como força transformadora”. Décadas depois, esse mesmo homem que começou como professor rural chegou à presidência da Argentina, entre 1868 e 1874, e governou a partir dos mesmos princípios que havia escrito: fomento à educação pública, às liberdades civis e oposição aos regimes ditatoriais.
O que aproxima esses autores não é apenas o fato de terem ocupado cargos ou transitado por estruturas de poder, mas a maneira como suas obras já antecipavam, cada uma à sua maneira, uma reflexão sobre o país, suas tensões e seus impasses. Antes de governar, representar ou legislar, eles escreveram. E, ao escrever, já estavam, de algum modo, intervindo.
Bitácora, seu diário de bordo com notícias latino-americanas
Tragédia no Haiti. Ao menos 25 pessoas morreram pisoteadas durante um tumulto na Citadelle Laferrière, no norte do Haiti. O local, um dos principais cartões-postais do país e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco, estava lotado e sob forte chuva no momento da confusão. De acordo com as autoridades locais, há muitos jovens entre as vítimas. Após a tragédia, a visitação foi suspensa por tempo indeterminado.Veja mais aqui.
Golaço argentino. O atacante Ignacio “Nacho” Lago revelou publicamente seu relacionamento homoafetivo em entrevista ao programa de rádio Sangre y Luto, ligado ao Colón de Santa Fe. Durante a conversa, foi surpreendido ao vivo com um vídeo do parceiro, que agradeceu por ele defender as cores de sua cidade. Emocionado, Nacho respondeu com uma declaração ao companheiro. Veja mais aqui.
Buscam-se arquivos. O juiz argentino Daniel Rafecas determinou uma busca no antigo apartamento de Carlos Guillermo Suárez Mason, um dos principais nomes da repressão. No local, foram apreendidos manuscritos e documentos secretos do Exército, que agora serão analisados pela Justiça. A expectativa é que o material ajude a esclarecer o destino de vítimas e a identificar responsáveis pelos crimes cometidos durante o regime. Veja mais aqui.
Plaza de cultura
🚀 Um latino em órbita. Em uma semana em que o espaço volta ao centro das atenções, vale lembrar a trajetória de Frank Rubio, astronauta filho de pais salvadorenhos. Ele entrou para a história ao completar a missão mais longa já realizada por um astronauta norte-americano: foram 371 dias na Estação Espacial Internacional, conduzindo experimentos científicos e testes tecnológicos. Veja ou relembre parte dessa aventura aqui.
📺 Curso imperdível. Vai até amanhã a inscrição para o curso “A literatura vai ao cinema”, que investiga como as obras literárias ganham vida no audiovisual, desconstruindo a ideia de “fidelidade” ao original. A partir de diferentes teorias, o programa analisa como a palavra se transforma em imagem, montagem e narrativa. As aulas acontecem entre 15 de abril e 6 de maio, sempre à noite. Inscreva-se aqui.
🎬 E por falar em cinema e literatura… Ambientado no início do século XX, o filme “O Recurso do Método” acompanha a ascensão e queda de um ditador latino-americano, que passa de um governante carismático a um líder tirânico, até ser derrubado e terminar seus dias no anonimato, em Paris. Dirigido por Miguel Littín, um dos mais importantes nomes do cinema chileno, o longa é uma adaptação da obra de Alejo Carpentier e foi indicado ao Festival de Cannes de 1978. Assista aqui.
Seres da América Latina
No início dos anos 2000, surgiu em Monterrey, no México, a cena dos chamados “cholombianos”, uma expressão cultural que misturava a cumbia colombiana com a estética cholo, que é marcada por penteados elaborados, roupas largas e um estilo próprio de dança. Um de seus traços mais singulares era a “cumbia rebajada”, tocada em velocidade reduzida após um erro técnico que acabou virando assinatura do movimento. Com o passar dos anos, a cena foi perdendo força, muito por conta das abordagens policiais frequentes, já que os “cholombianos” eram associados de forma equivocada com membros de gangues. Veja outras imagens do estilo aqui.
Colofão
Esta edição foi finalizada em uma segunda-feira de incertezas sobre os resultados da eleição no Peru.








Pra quem ficou interessado nos cholombianos, deixo a dica do filme Não Estou Mais Aqui, da Netflix :)